Terça-feira, 17 de Fevereiro de 2009
A triste história de António Garcia

 

Volto a publicar aqui esta fotografia que tirei na CERCIGUI, em Guimarães, porque escrevi uma crónica no jornal Público sobre o António Garcia (é o que está sentado na imagem, de óculos e casaco azul escuro). Deixo-a aqui também porque não podemos ficar indiferentes às injustiças, às faltas de apoio e às falhas graves de comunicação. É uma triste história por um lado mas, por outro, é uma história de grande dignidade e preserverança do António, da sua família, amigos e formadores.

 
 
António Garcia, 33 anos, 2º Sargento Paraquedista com uma folha de serviço irrepreensível e missões cumpridas na Bósnia e em Timor de onde voltou com louvores, regressou à base de S.Jacinto, em Aveiro, onde prosseguiu a sua carreira até à data de 26 de Novembro de 2002, dia em que se sentiu mal logo pela manhã. Como estava de serviço permaneceu firme no seu posto até ao hastear da bandeira e só depois pegou na bicicleta para se ir queixar ao oficial de dia de tremuras numa perna e visão desfocada. Nem os tremores nem o olhar turvo o impediram de cumprir as suas obrigações matinais mas uma vez chegado ao gabinete do oficial de dia era mais que evidente que já estava em grande sofrimento. Sem hesitações o superior mandou chamar uma ambulância e António Garcia foi internado com um diagnóstico de aneurisma e um prognóstico reservado.
 
Durante o mês de Novembro e Dezembro a situação clínica de António era de tal maneira grave e delicada que os médicos hesitaram na decisão de o operar. Sabiam que António corria perigo de vida e tudo indicava que podia não sobreviver à intervenção cirúrgica. Depois desta longa ponderação, António foi operado no dia 8 de Janeiro de 2003 no hospital de Sto António, no Porto, onde permaneceu em coma durante algumas semanas.
 
Cinco dias antes de ser operado o pai de António morreu e a mãe ficou viúva com dois filhos, um deles entre a vida e a morte. Abreviando a história, António sobreviveu à operação e regressou à vida com sequelas físicas muito graves e uma incapacidade na ordem dos 93%. Intelectualmente não foi afectado e continua a ter o mesmo espírito brilhante e a mesma memória prodigiosa que sempre teve mas fisicamente está muito limitado.
 
Desloca-se em cadeira de rodas, precisa de adaptações permanentes para viver uma vida razoavelmente integrada e tem graves dificuldades na expressão verbal. Embora fale mais devagar, percebe-se tudo o que diz mas é muito evidente a limitação na comunicação.
Conheci o António Garcia no fim-de-semana passado em Guimarães, numa visita à CERCIGUI, no centro de reabilitação e formação profissional onde ele e muitos outros frequentam cursos que lhes permitem tentar uma integração no futuro próximo.
 
O António chama a atenção pelo espírito vivo, pela inteligência dos seus comentários, pela alegria do sorriso mas, também, pela imensa tristeza no olhar que contrasta com a atitude aparentemente positiva e descontraída. Os olhos do António gritam no silêncio e não percebi logo porquê. Sentei-me ao seu lado para conversarmos e ele contou-me a história que agora conto e que infelizmente tem contornos muito feios que envergonham fatalmente todos os responsáveis militares e civis que até hoje se recusaram a prestar qualquer apoio ou a dar qualquer informação ao António.

 

Por incrível que pareça, nestes 6 anos que se seguiram ao episódio do aneurisma que, sublinho e insisto, aconteceu quando António estava de serviço no seu posto, na Base Militar de São Jacinto, em Aveiro, ninguém deu um passo para saber o que era preciso fazer e, muito menos, para dizer como o António Garcia e a sua família poderiam ser ajudados, apoiados ou encaminhados. Pior, nem as cartas escritas ao Chefe do Estado Maior do Exército, nem os pedidos de informação feitos à própria hierarquia da Base de S.Jacinto, nem a exposição dirigida ao Ministro da Defesa nem a carta escrita ao presidente da república tiveram outro eco para além de uma nota oficial de que tinham sido recebidas. Mais nada.

 

A mim, que só o conheci há uma semana, choca-me esta realidade e tira-me o sono saber que há quem acorde e adormeça todos os dias sem cumprir o seu dever perante um militar que cumpriu escrupulosamente o seu. António Garcia prestou serviços à nação com louvores e mérito, tem uma folha impecável onde constam 63 saltos e um acidente que lhe provocou um traumatismo craniano (um acidente de trabalho, note-se!) e apesar de estar ao serviço da Instituição Militar no dia em que ocorreu o episódio do aneurisma que o atirou para uma cadeira de rodas e o deixou gravemente incapacitado, não recebe um cêntimo do Estado nem o mais vago apoio das Forças Armadas. Bonito serviço!

 

A mim choca-me e envergonha-me esta triste história e como não acredito que seja só a mim, deixo aqui o telemóvel do irmão de António, que se chama Ricardo, é polícia e trabalha incessantemente para sustentar o irmão, para o caso de alguém querer e poder dar as respostas a tantas perguntas que continuam sem resposta. As tais de que falo no texto anterior. Não se trata de angariar fundos nem de dar dinheiro, mas sim de responsabilizar quem é responsável. Só isso. Aqui fica o número: 960479793

 



publicado por Laurinda Alves às 10:59
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6 comentários:
De Tudo SobreTudo a 17 de Fevereiro de 2009 às 11:10
Fique emocionada com esta historia! Não chocada com a atitude daqueles que o deveriam amparar pois infelismente vivemos num sistema egoista e mesquinho que visa os seus proprios interesses! Farei os possiveis para ajudar!
Obrigada por passar a mensagem, pena que existam tantos mais como este caso
TST


De Laurinda Alves a 17 de Fevereiro de 2009 às 11:19
O testemunho do António, da sua família e de todos os que o apoiam é comovente e transformador mas o silêncio dos responsáveis e dos que deviam dar respostas e apoios oficiais é chocante. Obrigada pelo comentário. Um abraço!


De Nuno Almeida a 27 de Fevereiro de 2009 às 22:35
acabei de ler esta noticia no blog http://especialistasdaba12.blogspot.com/
e como sou Deficiente das Forças Armadas, e sócio (nº 18) da ADFA - Associação dos Deficientes das Forças Armadas, senti uma revolta enorme. Não será para resolver estas situações que existe a ADFA? Porquê não considerarem o António Garcia Deficiente das Forças Armadas? Porque não lhe foi atribuída uma pensão já que ele estava em serviço quando sofreu o acidente? Que País é este que após + de30 anos do fim da Guerra do Colonial continua a tratar os seus militares como carne para canhão? Um abração de solidariedade para o António.


De Mário Fitas a 28 de Fevereiro de 2009 às 21:59
Veterana de Guerra no Sul da Guiné disse:

Abusas do teu poder,
Puseste-me uma mordaça
[Error: Irreparable invalid markup ('<br [...] <a>') in entry. Owner must fix manually. Raw contents below.]

Veterana de Guerra no Sul da Guiné disse: <BR><BR>Abusas do teu poder, <BR>Puseste-me uma mordaça <BR class=incorrect name="incorrect" <a>P´ra</A> eu não poder dizer <BR>Quem fez a minha desgraça. <BR><BR>(António Aleixo) <BR><BR>Que raio de Pátria é esta? <BR><BR>É a miséria de homens que temos ao leme deste país. <BR><BR>Não desanimes Ricardo, o António vencerá! <BR><BR>Mário Fitas <BR><BR><BR>


De mejores fuentes sobre casinos a 6 de Maio de 2009 às 20:23
Es una lástima que para unas cosas todos se acuerdan de los militares, que son capaces de dar sus vidas (y no hablo de los que se mueren y matan en servicio, pero de aquellos que dedican sus vidas y sacrifican mismo su felicidad familiar). Pero cuando ellos necesitan, donde está las mismas entidades que deberían apoyarlos?


De Tratamento da Celulite a 4 de Agosto de 2009 às 14:35
Portugal anda virado ás avessas e não há politicos que ponham este país na ordem. Este exemplo só vem confirmar aquilo que há muito sabemos: os governantes não estão cá para nos servir - estão cá para se servirem. A justiça é outro atraso de vida. Vergonhoso.


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