A Obra do Frei Gil, um sonho de mais de 10 anos!
Fui visitar a nova casa da Obra do Frei Gil, no Porto, e devo
confessar que me comoveu ver tudo novinho em folha mas
já com um par de semanas bem vividas neste novo espaço.
Fotografei o cameraman a filmar a equipa do Sporting em
cromos, porque também sou Sportinguista mas, acima de
tudo, porque me tocou o pormenor da decoração de um dos
rapazes que agora vivem nesta nova casa em Ramalde.
Esta casa da Obra do Frei Gil é um sonho tornado realidade
à custa das ajudas de centenas de amigos e voluntários da
Obra. As crianças e jovens em risco que moram nesta casa
viviam antes em condições muito precárias e degradadas.A
casa onde moravam tinha um espaço exíguo e estava muito
velha. Durante 10 longos e penosos anos a Obra do Frei Gil
multiplicou as iniciativas para angariar fundos e fazer obras
para uma nova casa e aquilo que parecia quase impossível
acabou por se tornar possível. A casa está de pé e aberta!
A equipa que dirige a casa e a mantém a funcionar mais as
crianças e jovens que lá moram, mudaram há poucos dias
para aqui e, por isso, tudo é uma novidade e uma alegria.
O próprio Frei Gil gostaria de ter estado presente no dia em
que se abriram as portas desta nova casa onde moram as
crianças que são maltratadas pelos pais ou negligenciadas
pelas famílias. O Frei Gil nunca desistiu de acreditar que era
possível acolher, cuidar e ajudar a crescer todos estes jovens.
Graças à inspiração do fundador e à tenacidade de uma equipa
extraordinária liderada por Graça Fonseca e Maria Gonçalves da
Cunha, formaram-se grupos de ajuda, juntaram-se voluntários
novos e antigos, escreveram-se cartas, trocaram-se mails e foi
possível ver finalmente todos os Meninos da Obra do Frei Gil a
ter uma habitação condigna. A mim, esta Obra diz-me muito pois
também eu participei nesta corrente de voluntariado que envolveu
centenas de pessoas que leram a revista XIS onde publiquei um
apelo aos leitores. Há 5 anos para mim esta casa era um sonho!
Estes e outros miúdos que agora moram nas novas instalações
foram os mesmos que foram escrevendo coisas mais ou menos
avulsas sobre a casa nova e a casa antiga. Um deles, com dez
anos (precisamente os mesmos que esta casa demorou a ser
construída) escreveu duas linhas num papel a dizer o seguinte:
"Na Casa Nova temos um buraco nas paredes dos dois pisos,
para onde podemos atirar a roupa e ela vai parar à lavandaria!"
Graça Fonseca, a directora, tem um sorriso sempre desenhado
na cara e é uma força da natureza. Fala dos seus meninos como
se fossem todos seus filhos. É admirável esta atitude e esta força!
Na imagem Graça (de encarnado) conta à Inês Menezes como as
coisas foram acontecendo e a Inês revive através dos detalhes ao
vivo aquilo que fomos vivendo na XIS nos tempos em que a revista
existia e íamos tendo notícias da evolução desta construção que
esteve parada mas, finalmente, arrancou e já nunca mais parou.
Ver as caminhas dos bebés trespassadas da luz que entra
pelas grandes janelas e sentir que o quarto dos mais novos
é quente e alegre dá o consolo que é possível ter quando
sabemos que estes bebés foram retirados às famílias por
serem maltratados ou abandonados. A tristeza desta triste
realidade aqui é compensada pela maneira como os bebés
são acolhidos e cuidados. Esta casa é um verdadeiro lar.
Os despojos dos dias nas casas onde há muitos filhos são
as mochilas que se deixam no chão no fim da escola, quando
ainda é dia e há tempo para brincar lá fora no pátio. Passo por
estas casas e fico sempre tocada pela familiaridade que sinto
nas rotinas, nos hábitos e na maneira como é possível viver e
educar dezenas de crianças e jovens em fase de crescimento.
Dou os meus parabéns a toda a equipa e assumo aqui que só
agora fui capaz de escrever sobre a visita por ela me ter tocado
profundamente. Confesso que sinto que a casa também é minha.
