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Crónicas de campanha

Crónicas de campanha

09
Mar09

A casa dos bebés e crianças retiradas às famílias

Laurinda Alves

 

Começo por voltar ao CAT, o Centro de Atendimento Temporário

de crianças e jovens em risco, de Viseu, que fiquei a conhecer no

fim-de-semana e não me sai da cabeça por mil e uma razões que

passo a explicar. Primeiro, pela incontornável realidade de acolher

bebés e crianças muito pequenas que foram retiradas aos pais e

famílias por serem maltratadas ou negligenciadas. Dói sempre a

certeza de que estas crianças não foram amadas e foram rejeitadas. 

  

 

Nestes berços estão deitados bebés muito pequenos que os

pais não foram capazes de amar nem cuidar, e impressiona

olhar para eles por serem tão queridos, tão frágeis e ainda tão

carentes de amor e cuidados. Comoveu-me este CAT por ser

um espaço tão familiar onde se sente o carinho e todo o amor

que uma equipa inteira de profissionais dão aos mais frágeis.

 

 

Olhar para as carinhas dos bebés, tocar nas suas mãos, sentir

o seu cheiro e a sua pele, ver como olham com os seus olhos

inocentes para um mundo por vezes tão adverso e cruel, enche

de ternura e, ao mesmo tempo, de frustração. Todos nós os da

equipa MEP-Europa que visitámos esta instituição, ficámos de

lágrimas nos olhos pela maravilha de trabalho que é feito com

estas crianças mas também pela dor e sofrimentos passados.

 

 

Tudo no ambiente deste CAT é tranquilo e bonito. Já visitei

muitos centros desta natureza e foram raros os que vi tão

bem cuidados, tão luminosos e tão familiares. A beleza da

casa onde se recebem crianças em risco importa muito até

porque estas crianças sentem e absorvem o que anda no ar.

Aqui todos os pormenores contam e foram muito pensados.

 

 

Até a arrumação das roupas e os armários onde se guarda

tudo o que outros oferecem a estas crianças está impecável.

Dá gosto ver uma ''casa de família'' onde há 22 ''filhos'' com

tudo tão em ordem. A organização e a arrumação importam! 

 

 

Do outro lado da casa existe uma sala ampla e arejada onde

as crianças brincam e se entretêm fora das horas de aulas e

onde os voluntários dão apoio nas brincadeiras mas também

nos estudos dos que já andam na escola. Há crianças com

idades compreendidas entre os 0 e os 6 anos e, por isso, há

as que vão à escola e começam a aprender a ler e escrever.

 

 

Apetece estar nesta sala colorida, divertida, onde há muito

espaço para brincadeiras. Este palhaço foi feito por todos

e agora vive encostado a uma das janelas que dão para o

pátio lá fora. Sobre este pátio gostava de dizer duas coisas.

 

 

A primeira é que é um pátio enorme e tentador para aproveitar

como recreio para estas crianças brincarem. A segunda é que

não é possível deixar as crianças ir para o pátio porque há lá

dois tanques enormes, com água, onde se poderiam afogar

em menos de dois minutos. É uma pena que estes tanques

permaneçam ali sem destino, a impedir estas crianças de ter

um espaço ao ar livre para brincarem e crescerem mais livres.

 

 

Vou escrever uma carta ao presidente da Câmara de Viseu a

falar destes tanques e a perguntar se se pode fazer alguma

coisa em breve. Bastaria esvaziá-los e cobri-los de terra ou

areia para criar ali um parque de diversões. Não me parece

impossível e tenho a certeza de que está ao alcance da CMV

fazer qualquer coisa que potencie o bem-estar das crianças.

 

 

Finalmente gostava de deixar aqui umas linhas à Drª Paula

Menezes, a directora do CAT de Viseu que me marcou pela

atitude positiva, pelo sorriso permanente (e contagiante) e

pela sensibilidade e ternura com que fala de cada uma das

'suas' 22 crianças. Não conseguirei nunca agradecer-lhe o

suficiente por ser esta luz no mundo e por devolver aos mais

frágeis o sorriso e a confiança na vida. E a dignidade também!

 

 

Toda a equipa MEP-Europa saiu desta pequena-grande casa

comovida e grata por nos terem aberto as portas e nos terem

feito sentir em casa. A Drª Paula Menezes tem a minha idade

(47 anos) e vive inteiramente dedicada a todos estes ''filhos''

e sublinho aqui a minha profunda admiração pela maneira

como exerce esta forma tão generosa de maternidade. Dar

colo a quem não tem colo, encher de mimos quem nunca os

teve, cuidar, abraçar, alimentar, vestir e educar bebés e crianças

cujo passado foi todo vivido em dor e abandono é muito mais

do que um trabalho. É uma verdadeira missão! Muito obrigada.

 

 

E termino este longo post com a imagem da entrada do CAT

da Misericórdia de Viseu, como uma breve despedida de quem

sabe que pode voltar mais vezes porque a porta estará sempre

aberta. Quem me dera poder ajudar e quem me dera que os 2

tanques de pedra do pátio deixem de existir muito em breve! 

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